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domingo, 2 de novembro de 2008

"Choro - do quintal ao Municipal", de Henrique Cazes


Henrique Cazes: outro discípulo de Radamés Gnatalli, autor de um dos mais importantes livros sobre a história do Choro lançados nos últimos anos.

Henrique Cazes é parte de uma geração que, criada no ambiente da roda de Choro, acabou sendo lapidada pelo talento, criatividade e liderança do (já na época) veterano Radamés Gnatalli. O resultado dessa união de gerações foi a inesquecível Camerata Carioca, grupo que expandiu as fronteiras do formato regional na década de 80, se tornando um tornando uma referência definitiva dentro do Choro, e sobre o qual falaremos mais profundamente em artigos futuros. Depois da experiência na Camerata, Henrique trilhou uma prolífica carreira como instrumentista (cavaquinhista), lançando inclusive discos solo, e também como arranjador.

Sua primeira incursão no mercado literário foi o livro didático "Escola moderna do cavaquinho", lançado em 1988 pela editora Lumiar. Somente mais de uma década depois, em 1999, é que viria a lançar aquela que eu considero como sua obra-prima: "Choro - do quintal ao Municipal".

Por revelar a história do gênero a partir do ponto de vista de um músico que participou intensamente dela, "Choro - do quintal ao Municipal" é um livro único. A abordagem é quase puramente histórica, sem maiores análises técnico-musicais, e a leitura torna-se bastante descontraída pelo fato de que, apesar de seguir uma linha cronológica bem definida, a narrativa é organizada por assuntos que não necessariamente se encadeiam no tempo.
Um ponto forte do livro - e que na minha opinião é algo que tem faltado a muitos autores, acabando por cair numa pretensa imparcialidade - é que Henrique não se furta em emitir sua opinião pessoal, definindo claramente seus pontos de vista, sem se acanhar em dar "chutes" e deduzir fatos a partir de seu conhecimento e de seu faro de historiador. Por exemplo, eis o que ele nos diz dos sobre os maxixes "Morro do Pinto" e "Morro da Favela", de Pixinguinha, no capítulo dedicado ao mesmo:

"(...) é difícil entender como um autor que já havia apresentado o sofisticado 'Dominante', e logo depois mostraria tantas músicas geniais, fizesse algo tão simplório quanto os dois Maxixes. Ou essas músicas não eram de Pixinguinha, ou ele tentou se aproximar de um formato mais simples e acabou se descaracterizando."

Henrique toca sem pudor em assuntos que sem dúvida são motivo de controvérsia e dividem opiniões, chegando a criticar veementemente as letras de música de Hermínio Bello de Carvalho, poeta e compositor, um dos mais importantes produtores musicais do Brasil. Acontece no capítulo 26, "Choro cantado, um assunto polêmico", quando comenta sobre a inclusão de letras em choros de autores já falecidos:

"No caso de Hermínio [Bello de Carvalho], sente-se um desinteresse pelo clima sugerido pela melodia e, por mais alegre que ela seja, o letrista está sempre falando de amores fracassados. Exemplo agudo do descaso de Hermínio com o clima da melodia é o alegre e quase humorístico 'Escorregando', de Nazareth, e cuja letra começa com: 'Meu coração é um manguezal ameaçado de extinção'. Por essas e outras, o Choro cantado tem tantos opositores."

Acredito ser muito importante essa parcialidade assumida, pois Henrique Cazes é um músico de peso e cuja obra e trajetória gabaritam a opinar com conhecimento de causa acerca dos diversos assuntos que a história do Choro abrange. Não se tratam de opiniões levianas e o autor passa longe da crítica gratuita, nem tampouco percebe-se nele o desejo de polemizar. Apenas opina sem pudor em certos pontos do texto, o que acho muito válido, como já disse; dar "pitaco" é algo permitido justamente pelo fato do autor ser um grande músico.
Indo um pouco além das opiniões, a parcialidade também se revela no fato de que Henrique claramente "puxa brasa pra sua sardinha", e acabam sendo bastante numerosas as citações a Radamés Gnatalli (com quem conviveu intensamente) e aos trabalhos dos quais o autor fez parte, como a Camerata Carioca.
Outro ponto alto é o capítulo 16, "A roda de Choro ontem e hoje", que garante boas risadas com vários "causos" ocorridos em rodas de Choro freqüentadas pelo músico.

"Choro - do quintal ao Municipal" é um livro indispensável do Choro, e não poderia deixar de figurar aqui em nossa Biblioteca.



Choro - do quintal ao Municipal
Henrique Cazes

Ano de lançamento: 1999
Editora: 34
232 páginas

Geralmente coloco o link para compra do produto pelo próprio site da editora ou gravadora, mas a editora 34 está com a página em construção. Também no site do autor não há como comprar o livro. Então aqui vai o link para compra na Saraiva, que foi o único lugar onde encontrei:

Saraiva.com.br

Visite também:

Site Henrique Cazes

Site Editora 34

Cotação Quintal do Choro: ótimo

terça-feira, 23 de setembro de 2008

"O Choro", de Alexandre Gonçalves Pinto


Esta é a primeira resenha da série Biblioteca do Choro, onde comentarei os principais livros ligados ao gênero. A exemplo da "Biblioteca", haverá também a Discoteca do Choro, com resenhas de discos, que já está sendo preparada.


Alexandre Gonçalves Pinto, o "Animal".

Não há dados biográficos precisos sobre Alexandre Gonçalves Pinto: conhecido como "Animal", ele provavelmente viveu entre 1870 e 1940, era carteiro e músico amador, tocava violão e cavaquinho.
O nome do Animal ficou imortalizado por conta do livro que publicou em 1936: "O Choro - reminiscências dos chorões antigos". Narrado em primeira pessoa, é um livro de memórias, que fala sobre as pessoas, as festas, e os costumes que Alexandre vivenciou nos seus muitos anos de Choro.

Muitas características fazem de "O Choro" um livro único. Em primeiro lugar, é dos poucos documentos a falar sobre o ambiente do Choro no Rio de Janeiro no final do século XIX e começo do século XX, trazendo centenas de pequenas notas biográficas sobre os chorões do período, muitos dos quais provavelmente nunca saberíamos da existência não fosse o livro. Há espaço também para falar de nomes já famosos na época, como Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros, Luperce Miranda, Catulo da Paixão Cearense, etc. A linguagem é exagerada, sentimental e saudosista na maior parte do tempo.
Outra característica marcante do livro são os erros, tanto históricos como gramaticais; Alexandre conta, por exemplo, que Villa-Lobos tocava violino, quando na verdade tocava violoncelo e violão; também diz que o pai de Pixinguinha era um excelente flautista, coisa desmentida pelo próprio Pixinguinha; chega a afirmar que "a polka é como o samba - uma tradição brasileira"; enfim, os erros são inúmeros, mas deliciosos, pois acabam por transformar a narrativa numa conversa descontraída com o autor. É como sentar-se e ouvir as histórias de um velho chorão, sem cometer a indelicadeza de interrompê-lo mesmo quando se percebe que disse algo errado; somente ouvir e viajar nas memórias.

O livro começa com uma carta de Catullo da Paixão Cearense ao autor, datada de 28 de outubro de 1935. Ao que parece, o Animal pediu a Catullo para revisar e prefaciar o livro, coisa que não teria sido possível, conforme podemos constatar no primeiro parágrafo da carta publicada:
"O prefacio que me pediste para teu livro, fica para outra vez. Não te posso ser util nas correcções dos erros, porque só uma revisão geral poderia melhoral-o, o que é impossível, depois de o teres quase prompto."
E Catullo prossegue, já preparando o espírito do leitor:
"O leitor, porém, se deliciará com a sua leitura, fechando os olhos aos desmantelos grammaticaes, revivendo comtigo a historia desses chorões, que te ficarão devendo eternamente o serviço que lhes presta, arrancando-os do esquecimento. Só mesmo tu, com o teu grande coração, serias capaz de uma obra tão saudosa para os que, como eu, viveram naqueles tempos de immarcesciveis recordações."
A primeira edição saiu em 1936, impressa pela Typografia Glória. A segunda só sairia 32 anos depois, em 1978, pela FUNARTE, em edição fac-similar à primeira, ou seja, uma cópia exata como uma xerox, sem revisões ou correções. As duas edições estão esgotadas, naturalmente, sendo um dos tesouros que colecionadores e pesquisadores buscam pelos sebos. Há exemplares nas principais bibliotecas do Rio, mas não sei se estão disponíveis para consulta, já que se trata de um livro raro. A edição que eu li foi a de 1978; encontrei-a por acaso na biblioteca de um grande amigo, o maestro Isaías Ferreira, o Zazá, e peguei emprestada.



A esquerda, a capa da primeira edição de 1936; à direita, a capa da edição fac-similar da FUNARTE, de 1978: por dentro, tudo idêntico à primeira edição.

A boa notícia é que a Acari Records (gravadora especializada em Choro, criada por Maurício Carrilho e Luciana Rabello em 1999) promete uma nova edição para 2009.

Agora é esperar e correr pras livrarias!

Cotação Quintal do Choro: ótimo