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terça-feira, 2 de junho de 2009

Homenagem a Joventino Maciel



O LP "Vibrações" de Jacob do Bandolim, lançado em 1967:
primeira gravação de "Cadência", música mais famosa de Joventino
Maciel.

Nascido em 3 de maio de 1926 na cidade de Campos, RJ, o compositor e bandolinista Joventino Maciel morou boa parte de sua vida em Rio Bonito, também no Estado do Rio, e conviveu com os grandes chorões de sua época, como Jacob do Bandolim e Pixinguinha.
O nome de Joventino foi eternizado na roda com a gravação de seu choro "Cadência" por Jacob do Bandolim no histórico LP "Vibrações", lançado em Outubro de 1967. Na contracapa do disco, Jacob comentou o seguinte sobre a música e o compositor:

"Inédito. Admirável a inspiração e o talento dêsse instrumentista. Compõe com extrema facilidade como provarei em futuras gravações."

"Cadência" é sem dúvida a música mais conhecida de Joventino, mas ele deixou cerca de 200 outras composições, principalmente Choros e Valsas, vindo a morrer no dia 1° de Outubro de 1993, aos 67 anos.
A maior parte dessas músicas ainda é desconhecida (mesmo dentro do universo de Choro; Jacob morreu sem gravar outras músicas dele como pretendia) e inédita em disco, mas o bandolinista Ricardo Maciel e o violonista Walter Maciel, respectivamente, filho e irmão de Joventino, tem trabalhado no sentido de divulgar e registrar essa obra, e também tem sido os responsáveis por batizar as músicas que o compositor deixou sem nome.

Um trabalho relativamente recente e que explorou essa obra foi o disco de estréia do Regional Carioca, lançado em 2006 pela Acari Records, totalmente dedicado a Joventino, onde o grupo levou ao público 14 músicas, entre elas a consagrada "Cadência", o Choro "Mexeriqueiro", batizado por Pixinguinha depois de tocada pelo próprio compositor numa roda, e a Valsa "Choppiniana", batizada por Jacob do Bandolim.

Há muito a se conhecer na belíssima e consideravelmente grande obra de Joventino, e no último domingo, dia 31 de Maio, ela foi o alvo do projeto Chorinho na Barca (já divulgado várias vezes aqui no Qui
ntal).
Um grupo liderado pelo bandolinista Marcílio Lopes (professor da Escola Portátil de Música, uma das instituições responsáveis pelo projeto) dedicou o pouco mais de uma hora de viagem às músicas do compositor, e teve como convidado o já citado Ricardo Maciel, também no bandolim. A excelente apresentação sobre as águas tranquilas (mas poluídas...) da Baía de Guanabara deu aos passageiros da barca Rio-Paquetá o privilégio de ouvir várias composições ainda inéditas, além de outras, já presentes nas rodas. Em alguns momentos Marcílio ia ao microfone fazer comentários sobre a vida de Joventino e sobre as músicas executadas. O encerramento do show não podia ser diferente: foi interpretado o clássico "Cadência".
Outro bandolinista, Pedro Amorim, também da EPM, fez uma pequena participação quando a barca já quase chegava ao destino.

Confira as fotos (clique para visualizar em tamanho grande):



O grupo de Choro que fez o som na barca Rio-Paquetá.
Da direita para a esquerda:
Wellington Duarte (violão de 7 cordas), Marcílio Lopes (bandolim),
Ricardo Maciel (filho de Joventino Maciel, bandolim).
Não lembro os nomes do cavaquinhista e do pandeirista. Quem souber por favor informe ao Quintal.


Ricardo Maciel e Marcílio Lopes.


Pedro Amorim participou no final da apresentação e fechou a trinca de bandolins.


Os passageiros da barca e o grupo de Choro.

Parabéns ao grupo e ao projeto Chorinho na Barca por esta justa homenagem que dá visibilidade ao grande músico que foi Joventino Maciel.

sábado, 30 de agosto de 2008

O encontro de Ernesto Nazareth e Francisco Mignone


Encontrei esse vídeo faz tempo, mas acho que tem muita gente que ainda não conhece.

Nele o grande compositor e pianista Francisco Mignone conta como foi seu encontro com Ernesto Nazareth, na Casa de Música Eduardo Souto em meados de 1917. Mignone estava com 20 e Nazareth com 54 anos, a essa altura já um compositor de sucesso.
Vale sublinhar o trecho em que Mignone relata como Nazareth gostava que sua música fosse tocada; ele teria dito:

Toda a minha música é estropiada, eles tocam tão depressa...o "Apanhei-te Cavaquinho" é um desastre!...

Que isso seja levado em conta pelos novas gerações de músicos que tocam, ou pretendem tocar Ernesto Nazareth...

Vamos ao vídeo!



Ernesto Nazareth (1863-1934)

Um dos maiores nomes da música brasileira, como compositor e como intérprete, transitando com igual desenvoltura entre o erudito e o popular. Dentro do Choro, tem uma importância tão grande que pode ser colocado no mesmo patamar de Pixinguinha, Joaquim Callado e Jacob do Bandolim. Aliás, foi Jacob o responsável pelo resgate muitas músicas de Nazareth, colocando o compositor de vez no repertório das rodas de Choro.
"Odeon", "Brejeiro", "Apanhei-te Cavaquinho" e "Ameno Resedá" estão entre suas mais famosas composições.

Francisco Mignone (1897-1986)

Pianista, compositor e regente, Francisco Mignone foi um músico erudito que por vezes atuou na música popular, ocosiões em que adotava o pseudônimo de Chico Bororó. Como compositor explorou a temática brasileira em diversas peças sinfônicas, sendo um dos principais nomes de nossa música erudita. Atuou no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos; participou do Movimento Modernista de 1922 e foi fundador do Conservatório Brasileiro de Música.
Em 1978 gravou com sua esposa, a também pianista Maria Josefina, um LP inteiramente dedicado às obras de Ernesto Nazareth.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A letra desconhecida para o "Carinhoso" de Pixinguinha


Pedro Caetano escreveu para o "Carinhoso" uma letra que nunca chegou a ser lançada.

No dia 17 de fevereiro de 1983 faziam dez anos que a música brasileira ficava órfã de Pixinguinha. Na ocasião, o jornal Folha da Manhã, de São Paulo, publicou uma reportagem com o seguinte título: "Há dez anos a MPB perdia seu mestre". O jornalista assinava apenas como J.M.C.

Depois de alguns comentários biograficos a reportagem chegava à uma história bastante curiosa contada pelo pesquisador de música brasileira João Luiz Ferrete, acontecida uma semana antes da entrevista, história esta que aqui transcrevo na íntegra:

Estava o Pedro Caetano em minha casa papeando, quando veio à baila a história de "Carinhoso", cuja música foi composta em 1917. Foi quando ele me contou um episódio inédito sobre a gravação da música em 1937, por Orlando Silva. O cantor, que não gostara da letra de João de Barro, o Braguinha, confidenciou ao seu irmão Edmundo Silva o fato. Este pediu a Pedro Caetano que fizesse outra letra. Orlando chegou a decorar a letra alternativa, mas Braguinha, que era muito esperto, já assinara o contrato para a gravação de sua letra com a RCA Victor. Orlando, que foi ao estúdio disposto a gravar a letra de Pedro Caetano, viu-se forçado, a contragosto, a cantar a letra de Braguinha, esta que todos conhecemos hoje.

Pedro Caetano (1911-1992) nasceu em Bananal, SP, mas mudou-se para o Rio de Janeiro aos 9 anos de idade, onde viveu até o fim da vida. Foi compositor de destaque da chamada Época de Ouro da MPB, tendo Claudionor Cruz como seu mais freqüente parceiro musical. Compôs sambas, marchas e valsas gravadas por grandes nomes como Francisco Alves, Orlando Silva, Cyro Monteiro e Dircinha Batista. As novas gerações sem dúvida o conhecerão pela música "É com esse que eu vou", gravada em 1973 por Elis Regina, aliás, em arranjo bem diferente da gravação original de 1948 com o grupo vocal Quatro Ases e Um Coringa, que foi destaque no carnaval daquele ano. Apesar do grande sucesso artístico, o compositor sempre trabalhou como comerciante de sapatos.
Sobre a letra que escreveu para o "Carinhoso" de Pixinguinha, Pedro Caetano, já na casa dos 70 anos, confessou à reportagem do Folha da Manhã: "Hoje não assinaria uma letra com linguagem tão cafona como esta. Mas o estilo das letras da época era este."

Apesar de achar que qualquer brasileiro sabe (ou pelo menos deveria saber...) de cor e salteado a letra original do Carinhoso, feita pelo Braguinha, aqui vai ela:

Meu coração
Não sei porquê
Bate feliz
Quando te vê


E os meus olhos ficam sorrindo

E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim

Foges de mim

Ah, se tu soubesses

Como eu sou tão carinhoso

E o muito, muito que te quero

E como é sincero o meu amor

Eu sei que tu não fugirias

Mais de mim

Vem, vem, vem, vem


Vem sentir o calor
Dos lábios meus
À procura dos teus

Vem matar esta paixão
Que me devora o coração

E só assim então

Serei feliz, bem feliz

Agora a letra que Pedro Caetano fez atendendo ao pedido do amigo Edmundo Silva, irmão de Orlando Silva, já que não havia agradado ao cantor a letra do Braguinha, esta aí em cima que todos conhecemos. Eis a letra alternativa, que nunca chegou a ser lançada (tente cantá-la sobre a melodia da música e perceba que encaixa perfeitamente):

Na mansidão
Do teu olhar
Meu coração
Viu passear

Uma feliz e meiga bonança
Quis abraçar, sentiu esperança
Mas eu fugi

Sem lhe sorrir

Preso à sensação
Daquele quadro que a ilusão
Descortinou tão docemente

Parte cegamente a suspirar
Por uma luz que mal surgiu
Viu se apagar
Vem, vem, vem, vem

Traz ao fosco brilhar

Dos olhos meus
A caricia dos seus

Vem sentir o quanto é bom

E carinhoso, vem afogar
Este coração
Que a solidão quer matar

Viu só? A letra do Braguinha realmente é melhor, mas não acho que a versão do Pedro Caetano seja assim tão cafona, como o próprio disse.
Curioso é perceber as semelhanças das letras. O vocabulário das duas é comum a qualquer canção romântica, daquela e de qualquer época: "coração", "olhos", "olhar", "feliz", "sorrir", "fugir". Mas perceba que as duas primeiras estrofes passam mais ou menos a mesma imagem, a mesma metáfora. Além disso, e ainda mais interessante, é o que ocorre no fim da 3ª e começo da 4ª estrofes: a melodia de Pixinguinha sugeriu aos dois poetas a mesma letra ("Vem, vem, vem, vem"), e em seguida quase a mesma rima ("meus/teus" e "meus/seus", respectivamente).

Com letra de Braguinha, ou de Pedro Caetano, o fato é: que música maravilhosa!